23/02/2007

Para o meu Pai

Só há duas coisas na vida que não se podem escolher: pais e filhos. Não tenho filhos mas se alguém me desse o direito à escolha, elegeria o Pai que tenho.
Do meu Pai herdei a preocupação com a família, o prazer de dar, a paixão pela vida e a nobreza de como sentia os seus amigos.
Por causa dele ainda olho para o relógio quando saio à noite e tento sempre chegar a horas.
Por causa dele só adormeço descansada quando estão todas em casa.
Por causa dele continuo a emocionar-me a ouvir a Ternura dos 40 do Paco Bandeira, quando ele diz "Meus Amigos, o importante é o sorriso".
Por causa dele continuo a sonhar que a vida me pode ser doce, porque foi com Ele que aprendi a lutar pelo que quero. E foram tantas as coisas que aprendi e que fez com que eu crescesse. Meu Deus!
Não sei como poderia sobreviver sem o meu Pai. Mas sobrevivo. E agora? ...
Quem me acolhe quando estou preocupada e assustada? Quem é que divide comigo as preocupações da vida? Quem me vai dissipar as dúvidas e os receios? Quem me vai ensinar a escrever palavras com “dois ésses” quando teimo em escrever com um “Cê de cedilha”?
Se não fosse o meu Pai, não acreditava no amor incondicional, na amizade, na dedicação e no significado das palavras: Amor; Filhas; Protecção.
Se não fosse o meu Pai, achava que não haveria justiça humana.
Não me saiu na rifa uma Pai daqueles que deixam os filhos fazerem o que querem nem daqueles Pais compreensivos que até conversam com os filhos sobre sexo ou de como se pode proteger da sida. Não! Mas saiu-me um Pai que me entendia os meus ataques de estupidez com um simples olhar, que me acalmava o choro nas adversidades, que metia processos em tribunal a todos os que me faziam mal.
E com ele aprendi a partilhar, a respeitar e a ignorar quem me ignora. Aprendi a ler nos olhos dos outros e a ouvir no silêncio as mais belas palavras de Amor.
Aprendi também que nos aviões não se tem vertigens e neles não posso andar sem falar com o Manel Zé.
Aprendi coisas tão simples como carregar no Fn F6 para suspender o monitor do portátil porque também os monitores têm tempo de vida.
Aprendi coisas importantes como ser independente, respeitar quem me respeita e calar-me AGORA para poder falar mais tarde.
Aprendi a ouvir tudo sem pressas e ter uma palavra de ânimo para quem precisa.
Por isso quando o for visitar aos Olivais, vou mergulhar na minha infância feliz e vou vê-lo com aquele sorriso iluminado e voltarei com toda a certeza ao melhor de mim e aposto que me vou sentir outra vez com dois anos, depois do nascimento da minha irmã, agarrada à perna dele, cheia de medo que ela mo roubasse ou então a ouvi-lo falar sobre as dinastias e os reis de Portugal e vou dar comigo a pensar que fui a miúda com mais sorte do mundo, que não há Pai como o meu, e que afinal tenho outra vez dois anos e voltarei então a agarrar-me à perna dele e sentir o seu mimo, a sua protecção; Filha pequenina até ao fim.

A todos os que me apoiaram, aos meus amigos grandes, às lagrimas, às flores, à saudade...
A todos...
Obrigada!

10 comentários:

Biely disse...

ó muda de nick, que queres que te diga... LINDO!!! Lembra-te sempre de uma coisa: quem pensas que ca nao "está", tas enganada... Vais ver que é aquele que quando precisares que esta ca primeiro. Parece impossivel mas olha o que eu te digo. Beijo grande para ELES!

Anónimo disse...

Tio Luís

PanKreas disse...

Os Pais são e serão sempre uma fonte de vida e inspiração.
A sua presença é eterna.
Grande beijo.

Anónimo disse...

Lindo

Anónimo disse...

Brilhante...

Anónimo disse...

Vieram-me as lagrimas aos olhos. Muito emocionante.

Anónimo disse...

Muito bem conseguido. Já tinhas dado mostras no Piolho da Solum de como escreves bem, para o mal e para o bem.
Parabéns.

Anónimo disse...

Ana, a tua sensibilidade e a capacidade que tens em mostrar da forma mais bonita o que sentes é e será o que mais admiro em ti.
Para ti, um beijo ...

JF

Anónimo disse...

Não é fácil.
Traduzir em palavras o que sentimos, e o que nem sabemos sentir, está ao alcance de poucos. Poetas, escritores, contadores de histórias. Há também as pessoas comuns, que por instantes se tornam naquilo que poderiam ter sido tivessem sido as suas opções de vida diferentes. É nestes momentos que conhecemos o mais dificil de conhecer nos outros, e ficamos surpreendidos pelas emoções que são capazes de provocar.
Fica assim provado, admitindo que haja alguém que ainda não o soubesse, a pessoa especial que és.
Continua a não ser fácil. Durante muito tempo. Depois é o hábito de viver com a saudade.
Um beijo
(não vou assinar, ainda não estou preparada para)

nómada disse...

sem palavras, mas com muita emoção...e orgulho!